Ser mulher francesa….

 
 
RICARDO FREIRE

Bon appétit


 

Ilustração: Rodrigo Pereira

A culpa é do livro que acabei de ler – perdão, devorar: French Women Don’t Get Fat (Mulheres Francesas Não Engordam). Subtítulo: O Segredo de Comer por Prazer. A autora é Mireille Guiliano, uma francesa de 58 anos que aparenta, digamos, 49, e é presidente do braço americano da companhia que produz o venerável champanhe Veuve Clicquot.

O livro foi lançado no comecinho do ano e já vendeu 300 mil exemplares, mesmo com toda a onda antifrancesa nos Estados Unidos. Vi no site da autora (www.mireilleguiliano.com) que os direitos de tradução para o Brasil já estão com a editora Campus. Adeus, Atkins. Passe mais tarde, South Beach. Dentro de pouco tempo, a dieta da moda vai ser a não-dieta.

Por quê? Ora, porque mulheres francesas não fazem dieta. Mulheres francesas não cortam carboidrato (mulheres francesas nem sequer pronunciam essa palavra). Mulheres francesas pedem entrada, prato e sobremesa. Mulheres francesas tomam vinho. Mulheres francesas comem pão e chocolate. Mesmo assim, mulheres francesas não engordam.

‘Magras-de-ruins!’, eu seria o primeiro a denunciar. Mas não é o caso. Segundo Madame Guiliano (o sobrenome é do marido ítalo-americano), as mulheres francesas não engordam porque comem sem culpa.

Calma lá – isso não significa que para virar uma mulher francesa basta sair traçando tudo o que aparecer pela frente, sempre lembrando de não sentir culpa nenhuma, non-je-ne-regrette-rien. O fato é que as mulheres francesas estão cobertas de razões para comer sem culpa. Mulheres francesas não comem nada entre as refeições. Mulheres francesas não comem em pé nem vendo televisão. Em vez de comer muito de uma coisa só, mulheres francesas comem um pouquinho de tudo.

Parece aquela velha e manjada reeducação alimentar, tantas vezes invocada pelo seu nutricionista. Mas é mais do que isso. Para emagrecer e manter o novo peso, Mireille Guiliano propõe um upgrade alimentar. Trocar o supermercado pelo mercado. O industrializado pelo artesanal. Uma barrona de chocolate vagabundo por um quadradinho de chocolate fino. Uma hora de esteira na academia por meia hora de caminhada na hora do almoço. Vem cá: como é que ninguém nunca me disse que meia dúzia de ostras contêm apenas 70 calorias? Emagrecer nunca foi tão chique.

Aparentemente, nem é tão difícil assim virar uma mulher francesa. O único sacrifício proposto por Madame Guiliano é tomar por dois dias uma sopa de alho-poró que serve como – as mulheres francesas que me desculpem a expressão – pontapé inicial para o emagrecimento definitivo. Na seqüência vem um programa de ‘reajuste’, que a autora não chama de sacrifício, mas de ‘descoberta de novos sabores’.

Quando precisou emagrecer, na juventude – depois de passar um ano como estudante de intercâmbio nos Estados Unidos -, Mireille Guiliano ouviu de seu médico que o segredo da boa alimentação está em promover as pazes entre o Narciso e o Pantagruel que existe em cada um de nós.

Não custa tentar. Se der certo, podem me chamar de Madame Freire.

 

Sobre Lena

Tenho muitas paixoes, mas a principal é viver
Esta entrada foi publicada em Health and wellness. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s